Filosofia

Nietzsche e o conceito de niilismo

O presente texto, intitulado “Nietzsche e o niilismo” busca ser um texto introdutório naquilo que condiz ao pensamento nietzschiano. O conceito de niilismo nesta perspectiva é de suma importância, isto porque Nietzsche irá fazer a crítica ao niilismo em todas as suas obras.

Como já foi mencionado, Nietzsche proporcionou em suas obras, críticas ao pensamento niilista, porém, o que é um pensamento niilista? Para responder tal pergunta se faz necessário voltar um pouco na história e analisar o conceito da palavra como também o emprego da palavra antes de Nietzsche.

Niilismo é uma palavra derivada do latim “nihil” que significa “nada”, ou seja, o niilista é aquele(a) que se deixa levar/conduzir pelo nada. A palavra niilismo tem o seu surgimento em um romance intitulado “Pais e Filhos” de Irvan Turgueniev, porém, a mesma terá maior destaque em Dostoiévski, em particular na obra “Irmãos Karamazov”, onde o mesmo diz: “Se deus não existe, tudo é licito”.

Niilismo e tipos de niilismo

Com a chegada de Nietzsche a palavra niilismo ganha outra definição, para Nietzsche, a definição é invertida, ou seja, antes o niilismo era conduzir uma vida através do nada, uma vida sem valores, mas no pensamento nietzschiano o niilista é aquele(a) que conduz a vida por valores, valores superiores como o mesmo irá chamar. Dito o que é o niilismo na filosofia de Nietzsche podemos, então, esmiuçar alguns tipos de niilismo presentes nas obras de Nietzsche.

A história da civilização ocidental é uma história protagonizada pelo pensamento niilista, surge o primeiro niilista da história, Platão. Para Platão “o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”, o mesmo se refere ao mundo das ideias, para ele existiam dois mundos, o mundo inteligível onde existiam as formas perfeitas, eternas e imutáveis, e o mundo sensível, o mundo que nós conhecemos e que vivemos, o mundo das cópias. Mas para Nietzsche, o tempo é eterno, o mesmo não possuí início e nem fim.

Platão seria o niilista negativo, pois o mesmo nega esta vida em nome de outro mundo. Como já foi mencionado anteriormente, no platonismo nós negamos esta vida em nome de uma ilusão. Nietzsche fez uma crítica devastadora ao platonismo no livro “Crepúsculo dos Ídolos”, para ser mais especifico no trecho “Como o mundo verdade enfim se tornou uma fábula — história de um erro” (NIETZSCHE, 2001, p.11).

O ‘mundo verdade’, acessível ao sábio, ao religioso, ao virtuoso – vive nele, ele mesmo é esse mundo. (A forma mais antiga da ideia, relativamente inteligente, simples, convivente. Perífrase da preposição: ‘Eu, Platão, sou a verdade’). (NIETZSCHE, Crepúsculo dos Ídolos, História de um erro §1).

A segunda variação do niilismo é o niilismo reativo, também conhecido como a Morte de Deus, neste caso o homem reage à ideia de Deus em nome de progresso humano, em nome do progresso nós matamos Deus! Nietzsche não propõe que Deus seja morto, isto porque se ele existir não pode morrer, porque está no conceito de Deus não morrer; se ele não existe também não pode morrer, isso porque para morrer tem que existir. Nietzsche no niilismo reativo diz que o homem nega a vida em nome de um ideal chamado progresso. Por sua vez, a Morte de Deus nada mais é que a substituição do homem moderno em relação a Deus, Deus passa para segundo plano, em primeiro plano está o homem científico.

O Homem Louco – […] Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? Também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então. (NIETZSCHE, Gaia Ciência, §125, p.149).

O fundamento absoluto da vida está morto e nós o matamos, porém, nós somos deuses entre os homens, fizemos uma crítica absoluta da metafísica, nossa filosofia não se baseia mais em estudar o que é Deus, e sim, o homem. O homem moderno como perspectivas de possibilidades.

A terceira forma de niilismo é o niilismo passivo, neste tipo de niilismo o homem se entristece pela impossibilidade de amar, desejar e criar, nele o homem já não acredita em um mundo fora daqui como também não acredita em progresso humano. Nietzsche coloca em seu livro “Assim Falava Zaratustra” o personagem “Adivinho”, este personagem representa o niilismo passivo, dirá o Adivinho: “Tudo é igual, nada vale a pena, o saber nos sufoca”.

Nietzsche tem uma grande preocupação com este tipo de niilismo, o niilismo da Morte de Deus, isso porque o niilismo reativo pode seguidamente gerar o niilismo passivo, ou seja, uma expansão do niilismo passivo, Nietzsche coloca essa preocupação de forma poética no livro Assim Falava Zaratustra, ele irá dizer “o deserto vai crescer”.

A quarta variação do niilismo é o niilismo ativo, o niilismo ativo se assemelha bastante com o niilismo passivo, o que distingue um do outro é que o niilista passivo não têm esperanças em além-mundos, como também não tem esperanças no progresso humano, porém, o niilista ativo também é assim, mas o niilista ativo afirma a vida através do eterno retorno de todas as coisas ou eterno retorno do mesmo, ou seja, viver como se cada instante retornasse eternamente, é o afirmador do grau máximo da vontade de potência, viver o peso mais pesado de todos, ou seja, a vida.

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e dissesse: ‘Esta vida, assim como tua vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!’ – Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: ‘Tu és um deus, e nunca ouvi mais divino!’Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: ‘Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?’ pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? (NIETZSCHE, Gaia Ciência, § 341, p.239).

No que se refere ao passivo e o ativo, um é triste e o outro é alegre, ou seja, o niilista passivo é uma pessoa triste por não ser capaz de acreditar em um mundo prometido, um além-mundo, mas também não acredita em progresso humano, logo se entristece! O niilista ativo também não acredita em além-mundos como também não acredita em progresso humano, mas é feliz ao afirmar a vida através do eterno retorno de todas as coisas.

Apresentei quatro tipos de niilismo, o negativo, o reativo, o passivo e ativo, todos possuindo suas peculiaridades que perpassa gerações. Mas qual foi à resposta de Nietzsche para estes tipos de niilismos?!

Nietzsche irá propor a superação do homem, “O homem é superável”, a resposta de Nietzsche é o além do homem, um ser que quebra com todos os valores, valores niilistas que negam a vida, o além do homem é o criador de sua própria moral, isso porque ele irá ultrapassar todo e qualquer tipo de niilismo.

Considerações finais

Nietzsche foi um grande filósofo que viveu além do seu tempo. Escreveu vários livros, bons livros! Suas obras permanecem atuais até hoje. Responsável por uma das maiores críticas sobre a moral cristã, um destruidor de religiões por assim dizer. Nietzsche é para mim além de um grande escritor, um educador, um homem incompreendido pela sua época, porém, um poço de conhecimento, para mim, uma alegria! Imortalizado pela história. Seu pensamento permanece vivo em muitas pessoas.

 

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Referências

BÔAS, João Paulo Simões Vilas. Niilismo e vontade no pensamento de Nietzsche. Revista Trágica: Estudos sobre Nietzsche. 1° semestre de 2009.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor M. Os Irmãos Karamazovi. Abril Cultura, 1970. Tradução: Natália Nunes e Oscar Mendes.

FIGUEIREDO, Ícaro Meirelles. Nietzsche e a crise da cultura ocidental: niilismo.

LAGES, Lucas Nogueira do Rêgo Monteiro Villa. O demônio de Nietzsche: niilismo, eterno retorno, e ética do cuidado de si. 2010.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos Ídolos. 2° Edição. Editora Escala. Traduzido por Antonio Carlos Braga.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras Incompletas. A Gaia Ciência. Assim falava Zaratustra. Editor: Victor Civita.
PLATÃO. A República.