Filosofia Poemas

Nietzsche e sua vocação de poeta — Das Canções do Príncipe Livrepássaro

Nietzsche e sua vocação de poeta. O Blog Temas Variados já publicou em seu espaço várias postagens sobre o pensamento do filósofo Nietzsche, hoje nós iremos apresentar um poema da autoria deste pensador. Nietzsche além de filósofo também foi um grande poeta. Logo, trabalharemos um dos poemas de Nietzsche nesta postagem.

O poema corresponde aos anos de 1882 a 1884, sendo o mesmo publicado em apêndice do livro “A Gaia Ciência”, na edição de 1886.

Iremos utilizar a tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, tradução para editora Abril Cultural, cuja primeira edição corresponde as Obras Incompletas de outubro de 1974. O poema foi escrito da mesma forma que se encontra no livro.

 

(Das canções do príncipe Livrepássaro).

 

Ainda outro dia, na sonolência

De escuras árvores, eu sozinho,

Ouvi batendo, como em cadência,

Um tique, um taque, bem de mansinho…

Fiquei zangado, fechei a cara —

Mas afinal me deixei levar

E igual a um poeta, que nem repara,

Em tique-taque me ouvi falar.

 

E vendo o verso cair, cadente,

Sílabas, upa, saltando fora,

Tive que rir, rir, de repente,

E ri por um bom quarto de hora.

Tu, um poeta? Tu, um poeta?

Tua cabeça está assim tão mal?

— “Sim, meu senhor, sois um poeta”.

E dá de ombros o pica-pau.

 

Por quem espero aqui nesta moita?

A quem espreito como um ladrão?

Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita

Salta à garupa rima e refrão.

Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta

Em verso o poeta, justo e por igual.

— “Sim, meu senhor, sois poeta”.

E dá de ombros o pica-pau.

 

Rimas, penso eu, serão como dardos?

Que rebuliços, saltos e sustos,

Se o dardo agudo vai acertar dos

Pobres lagartos os pontos justos.

Ai, ele morre à ponta da seta

Ou cambaleia, o ébrio animal!

— “Sim, meu senhor, sois poeta”.

E dá de ombros o pica-pau.

 

Vesgo versinho, tão apressado,

Bêbada corre cada palavrinha!

Até que tudo, tiquetaqueado,

Cai na corrente, linha após linha.

Existe laia tão cruel e abjeta

Que isto ainda — alegria? O poeta — é mau?

E dá de ombros o pica-pau.

 

Tu zombas, ave? Queres brincar?

Se está tão mal minha cabeça,

Meu coração pior há de estar?

Ai de ti, que minha raiva cresça! —

Mas trança rimas, sempre — o poeta,

Na raiva mesmo sempre certo e mau.

— “Sim, meu senhor, sois poeta”.

E dá de ombros o pica-pau.